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sexta-feira, 9 de junho de 2023

Regina


Por todo o tempo em que a eternidade existir...

E entre evoluções e revoluções...

Caminhos e descaminhos...

Alvoradas e crepúsculos...

O estado natural de todas as coisas em mim será sempre você...






quinta-feira, 14 de maio de 2020

Guava Island




Fazia tempo que não assistia a um filme tendo aquela sensação boa de surpresa. Sem ficar fuçando no celular bem no meio da apresentação.
Guava Island (2019) apresenta a história de amor entre Deni e Kofi numa ilha com um sistema totalitário onde todos trabalham para uma única empresa. Existe uma segunda relação de amor entre Deni, a música e a liberdade representada pela forma despretensiosa e relaxada com a qual o protagonista é apresentado.
Childish Gambino, pseudônimo de Donald Glover se investe de seu personagem em This is America mas de maneira mais natural e com mais tempo de tela nos agracia com suas danças peculiares e com uma afinação musical para cantar que eu desconhecia (não acompanho a carreira do ator como músico).
Quanto a Rihanna, bem, o que dizer de uma mulher que sempre está bela nas fotos mas que aqui estava investida numa mulher comum. Bonita ainda, mas comum. Devo admitir que foi uma das coisas que me chamou a atenção. Suas roupas, cabelo. Até a forma de andar não lembrava em nada aquela mulher poderosa criada pela indústria da mídia.
Me surpreendeu também o fato de a trama se passar em uma fictícia ilha chamada Guava tendo como cenário original a ilha de Cuba. Acho que esta foi a primeira vez que eu vi algo filmado lá. Durante todo o filme fiquei me perguntando que lugar era aquele sem obter resposta. As ruas de terra, casas pobres, igreja humilde e predominância de pessoas negras me fez lembrar de muitos locais pobres no Brasil
O filme em si tenta ser um musical e conta uma história de opressão e sobre a importância de se ter um tempo para a diversão. Literalmente ter uma folga para o trabalho chato e repetitivo. Me fez pensar o quanto por vezes entramos no automático e deixamos que as "prioridades" e obrigações da vida se sobreponham sobre o que de fato nos faz faz bem que é viver a vida com quem amamos e com quem nos faz bem.
Final é meio que previsível mas nem de longe tira a leveza e a despretensão com a qual a história segue. Diversão boa para a quarentena.

Confinado em um 14 de maio



Acordei cedo hoje, não porque quisesse ou porque havia me programado para. Simplesmente despertei.
As luzes apagadas. A cidade ainda dorme, mas cá estou eu desperto ouvindo as poucas gotas de uma chuva que timidamente ensaia cair. A maioria dos quatorze de maio são assim, com chuvosos, contemplativos.
A chuva, tão fluída como o tempo passou. Para mim, por quarenta anos. Reflito sobre o momento em que estou, sobre a saúde que tenho e sobre o tempo que vivo e percebo de fato o quanto é desafiante estar aqui respirando literalmente.
Cheguei a quatro décadas de vida confinado, ameaçado por algo tão pequeno quanto a um vírus. Paro para pensar o quanto evoluímos tecnologicamente nos mais diversos assuntos mas aceitamos e permitimos que uma gripe nos pusesse de joelhos, ou melhor, de quarentena.
É um tempo muito louco para se estar vivo, contudo, sou grato. Grato por tudo o que tenho. Grato por ter um pai que me ama de maneira incondicional e com toda certeza é um homem melhor do que eu. Grato por ter uma mãe alegre e persistente que me ensinou a ter garra mas levar a vida com leveza. Grato pela namorada que tenho por me fazer me sentir amado e importante para alguém. Sou grato pela minha profissão com a qual conquistei tudo que tenho mas acima de tudo com a qual me realizei como pessoa.
O mundo pode estar louco e por vezes pode nos deixar loucos, contudo, em meio a esta loucura vou tocando meu barco de lucidez. Enfrentando o mar feroz e a chuva que ensaia cair. Que venham ao menos mais quarenta anos e que sejam todos de desafios, de superações e de alegrias no final.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Lágrimas


Por vezes as lágrimas apenas vêm. Sem pedir licença e tampouco se importando se é o momento e o lugar certo.
Elas transbordam quando não há mais o que se fazer. É o recurso final da alma quando esta se cansa de tanto lutar.
São como palavras tristes que carregam toda uma dor para a qual não se tem solução.
É a forma de se gritar para o mundo o quanto tudo está errado e ainda assim fluído.
Por vezes as lágrimas apenas vêm. Chegam de uma maneira incontrolável, entre soluços e olhos cerrados, pensamentos reincidentes e constantes.
Estragam a maquiagem, avermelham os olhos e enruga todo o rosto.
Geram empatia e pena àqueles que por perto estão, as indiferença a quem por tantas vezes já perdeu em tantas noites de choro.
São o ápice de algo que precisa ser posto para fora mas não sai.
Lágrimas são o que são. Pequenas gotas de grandes sentimentos por vezes sem sentido, por vezes dolorosos mas tão vivos dentro de nós.
Venha e transborde. Derrame e deforme mas acima de tudo faça ir embora a dor.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mais um 14, mais um maio...


E o mês de maio vai assim passando. Lento, frio e chuvoso. As coisas de maio são assim. Lentas, porém contemplativas. Frias como quem se convida para um carinho quente e chuvosas como aquele período reflexivo necessário a alma.
Para os astrólogos é o mês de touro e de gêmeos. Dizem que touro pertence ao elemento terra. Deve ser verdade. Sempre gostei do cheiro de terra molhada e das coisas belas e cultas, do material e do tangível, da segurança e do conforto, mas quem não gosta de tudo isso não é?
Maio se vai mais uma vez. Para mim pela trigésima nona. Vejo agora um novo ciclo se iniciar lento, frio e chuvoso mas também esperançoso. 
O ano é constituído de um conjunto de doze meses como aprendemos desde de criança, mas maio é aquela parte deste duodécimo que teima em existir e se destacar na diversidade álgida da simplicidade.
E nesta morosidade gélida e pluvial vou seguindo com meu barco.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Hi Score Girl e uma saudade boa



Eu devia ter uns doze anos de idade quando tive meu primeiro contato com os jogos de fliperama. Fazia naquela época um curso de mecânica de automóveis em uma escola perto de casa. Não sabia, como qualquer garoto desta idade, o que queria fazer da vida. Ia para este curso mais por conta da vontade do meu pai.
A introdução é nostálgica porque remete a um tempo de minha vida que parece tão distante, mas enfim, o que diabos tem haver o curso de mecânica que eu fiz e o seriado Hi-Score Girl da Netflix? A resposta é simples. Havia um fliperama do lado da escola.
Lembro que prestava pouca atenção as aulas. Ficava a maior parte do tempo vendo os outros garotos jogarem. Muitas das vezes os professores me chamavam para a aula porque lá estava eu no fliperama. 
Essa paixão continuou por anos. Prestei prova para uma escola técnica em outra cidade. Passei, comecei a estudar e logo fui reprovado no primeiro ano. Muito dessa reprovação se deveu a The King of Fighters 95. Deixava de ir a aula para passar a manhã inteira jogando. Claro que haviam outros motivos para minha reprovação mas meu vício em fliperama foi um deles.
Os anos se passaram. Mudei meu gosto por jogos para RPG e consoles caseiros e cá estou vinte e seis anos depois escrevendo estas poucas linhas com um sorriso no canto da boca.
Hi Score Girl conta a história de Haruo. Um garoto com a idade próxima a que eu tinha naquele época. Ruim com os esportes, com a escola e com todo o resto, mas, dedicado aos jogos, principalmente a Street Figher 2. Ele nutre uma relação de ódio no começo mas de amor também por Ono, uma garota misteriosa e que é melhor do que ele nos jogos de luta.
Para quem foi criança e adolescente na década de 90 se reconhecerá em muito com as situações vividas pelo protagonista. Gastar todo seu dinheiro nos jogos, viajar para lugares distantes para conhecer novos fliperamas e games de luta. Fazer amizades sinceras e inimizades também. O caminho trilhado por Haruo é o mesmo que trilhei e o mesmo que muito por aí trilharam também.
Poucas obras hoje em dia me fazem refletir sobre minha vida e minhas lembranças. Talvez esse seja o motivo pelo qual Hi Score Girl tenha ganho um espaço no meu coração. Espero que traga boas lembranças a muito mais pessoas também.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Já faz um ano

Dia 5 passado fez um ano que escrevi algo por aqui. Um bom tempo eu diria, mas não significa que a vida parou. Talvez seja o caso de falta de inspiração mas com toda a certeza não é o caso de falta de coisas para fazer.
Neste intervalo de um ano muitas mudanças ocorreram. Passei a morar sozinho o que inevitavelmente me levou a ter que cozinhar minha própria comida. Parece cômico e aqueles que me conhecem sabe a negação que eu era na cozinha.
O fato é que após um ano vejo um saldo positivo de mudanças. Protelei demais e hoje tento recuperar o tempo com novas experiências diárias, mas todas enriquecedoras.
Nova vida, novos ares e um melhor ânimo. Tenho me percebido mais solto e comunicativo. Acredito que aqui o pouco mais de idade tenha me permitido olhar as coisas ao meu redor de uma maneira mais suave.
Por fim, continuo acreditando sem ressalvas que mudar ainda é a única certeza imutável e que o novo abre se apresenta em diversas oportunidades. Tudo é uma questão de observar e agarrar aquela que melhor se apresenta.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Insomnia Est



Descalço sinto o chão gelado sob meus pés.
Por entre cômodos vazios percorro minha procissão.
Absorto e envolto em pensamento...
Perco as horas em minha rotina perene.

A madrugada é companheira silenciosa.
Como quem já cansou de ouvir lamúrias.
Está ela lá, altiva, mas jamais ingerente...
Onipresente ela apenas vê e mais nada...

As noites por vezes parecem sem fim.
E sem fim são os anseios.
Sem fim são minhas considerações.
Que se derramam por sobre meu pesar.

É estar acordado e ainda sim entorpecido.
É a letargia de viver mais horas que um normal.
É desejar o que se parece inalcançável.
É querer dormir e simplesmente não conseguir...




terça-feira, 2 de maio de 2017

Quando um homem tem um probleminha


Acho que todo garoto em algum momento na vida quis crescer logo. Acredito que todo menino um dia se perguntou como seria ter barba ou como seria falar grosso igual seu pai ou seu avô. Muitos jovenzinhos sonharam estar dirigindo um carro e para aqueles um pouco mais crescidos, ter uma namorada.
O fato é que todo garoto, sem exceção é ansioso. Ansioso por se tornar um homem, afinal de contas o que há de melhor na vida? Poder conquistar tudo. Poder viver a vida. Ser alguém que faz a diferença.
Na maioria das brincadeira, os meninos são soldados, astronautas, atletas e por aí vai. São estimulados a superar limites. E assim vão passando os dias de uma rápida infância.
Eis que então, e finalmente ,chega a vida adulta e como jovem adulto, barba falhada, voz de taquara o mundo se apresenta em toda a sua glória e por vezes decepção.
Não ha mais brincadeiras. Há trabalho. Não há mais tempo livre. Há necessidade de estudar ainda mais. Não há mais férias no meio e no final do ano. Não mais. Mas existem as contas a serem pagas. As cobranças dos outros e até daquela namorada que se queria muito ter.
Não inventaram um manual de como se tornar um homem, mas ali está ele, ansioso, cheio de sonhos mas amarrado pelos pés e pelas mãos.
Ser homem não é fácil. Ninguém nunca disse que seria, mas ninguém nunca definiu direito o que é ser de fato um homem. 
Alguns dizem que homem não chora. Outros que o homem deve honrar suas calças. Alguns dizem também que o homem não deve levar desaforo para casa. Muitos pensam que ser homem é beber até cair ou pegar todas.
O mito criado ao redor do ato de ser homem por vezes confunde aquele garoto que só queria crescer. Tudo isso é ser homem? A resposta é sim... e não ao mesmo tempo. Você não pode chorar e por isso guarda dentro de si aquele sentimento por vezes ruim. Você tem que horar suas calças apesar de não serem sagradas. Este adereço místico do vestuário masculino ganhou um empoderamento tão grande que praticamente define a masculinidade de um ser mesmo sendo apenas um pedaço de tecido com algumas costuras que inclusive as mulheres usam também. O homem jamais deve levar desaforo para casa ainda que isso te custe a dignidade, uns dentes, hematomas e até mesmo a vida. Evoluímos de um estado tribal para uma sociedade avançada tecnologicamente mas o instinto animal de se resolver as coisas deve prevalecer e assim o prevalece quando para mostrarmos aos outros o quanto somos machos, bebemos até cair ou pegamos todas em qualquer lugar e a qualquer momento sem nos importarmos se aquela mulher é um ser humano ou um pedaço de carne a ser possuído.
Com tudo isso não é de se estranhar que a depressão é um dos males modernos e que talvez afete em uma intensidade maior homens do que mulheres, mas elas podem admitir que têm um problema e até chorar. Eles serão frouxos se assim o fizer. Os mais corajosos dizem que tem um probleminha, mas as vezes nem sabem como descrever o que sentem porque ser homem é também não entender direito sentimentos e sensações. É querer ser forte como uma rocha sempre, pouco se importando com a água que bate.

quinta-feira, 9 de março de 2017

E não viveram felizes para sempre



O amor tem dessas coisas...
Precisa ser sentido, precisa ser vivido...
Mas acima de tudo precisa ser confiado.
O amor desconfiado é um meio amor.
É um viver sem calor.
Uma lamentação sem fim,
É estar perturbado pela pior das dúvidas...
E se?

São noites de sono mal dormidas
Embrulhos no estômago
É querer estar dentro do outro
A vasculhar...
A querer encontrar aquele detalhe...
Por vezes avassalador
Devastador, usurpador...
É o torpor de toda uma dor...
Pujante, gritante e mesmo irritante.
Pois é. O amor não é tudo, mas...
A confiança assim o é.

Carente de fé,
Os ânimos se desanimam,
Os dentes se mostram, não num sorriso
E sim no ranger eufórico
Lascas de sentimentos se chocam...
E faíscas por vezes se faz ver
Sim. É ofensa, lambança
Falta de razão...
É um final infeliz...

sábado, 17 de setembro de 2016

Abraçar a eternidade...



Hoje eu morri... e renasci
Para depois me atormentar
Sem nexo, sem sentido
Sem gosto, sem gostar...

Cresci. Pouco, mas cresci
Longe dos olhares,
Mas ainda assim preocupado...
Com os olhos

No tempo me perdi...
Como quem perde vida
Como quem perde tudo
Vi perante meus olhos
O bater de asas de um sonho...

Triste e sozinho...
Abracei o amargor
Abracei a eternidade...
Do que poderia ter sido, 
Mas não foi...

Brilhante em outros sóis se foi
Escuro em uma penumbra ficou
Não mais existo e não mais existirá
Não este raio de sol...
Não este momento...

Nunca mais...



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Aqueles olhos azuis



Existe beleza na pequenas coisas e mais ainda nas pequenas coisas que passam pela cabeça de uma criança.
Já passava de seus oitenta anos. As dores no corpo e a memória um tanto falha denunciavam a longa jornada que havia trilhado até então.
Com tanto vivido e tão pouco a viver pela frente passara a apegar-se a lembranças de um passado distante e bom. O nascimento do primeiro filho. O dia de seu casamento. A primeira vez que foi a praia. Todas estas foram sensações únicas e ele sabia que muito do que era hoje havia dependido delas, mas algo o incomodava.
Ele meio que queria algo mais antigo. Algo que o remetesse aos tempos em que o tempo não fizia tanta diferença assim. Lembranças da infância com toda a certeza preencheriam essa lacuna, mas qual?
Sim. A idade havia chegado. E ele triste concluía o inevitável. Era um dos últimos de sua geração a estar vivo. Sua amada esposa se fora anos antes. Assim como seus irmãos mais velhos e seus amigos mais próximos. Refletia sozinho sobre a longevidade. A vida era boa, não tinha do que reclamar. Gozava de relativa boa saúde. Teve filhos ótimos e que te deram muito orgulho e netos encantadores. Todas grandes alegrias, mas aqueles que poderiam ajudá-lo a recordar de sua infância não estavam mais ali e isso o incomodava.
Levantou-se da poltrona com um pouco de custo e caminhou até a janela. A tarde estava bela com um sol não muito quente. Ele sentia aquele calor rejuvenescedor em seu rosto e por um instante lembrou-se dos olhos azuis. Mas o que aquilo significara?
Seus olhos eram negros como a noite. Como poderia ter a lembrança de ter tido olhos azuis? Coisa de velho talvez. A cabeça costuma pregar peças num octagenario e estava ali brincando com ele.
Cismado, viu o dia passar e quando a noite chegou, adormeceu.
Dia seguinte acordou cedo. Estava disposto a descobrir o segredo por trás daquele fragmento de memória. Puxou uma caixinha de dentro de uma gaveta. Ali estavam preciosidades. Um pequeno tesouro ao qual jamais abriria mão. Haviam fotos, uma correntinha de São Bento e muitas cartas das quais uma em especial, escrita por sua mãe. Ele parou por algum tempo. Fitava aquela carta com um carinho especial. Estava naquele pedaço de papel a única lembrança palpável de sua mãe. Ele olhava e dizia a si mesmo como ela tinha uma caligrafia bonita. Refletiu sobre aquele pedaço de papel um pouco e em seguida pensou no celular de nova geração que seu filho mais novo lhe deu e com o qual eles trocavam mensagens. Lhe ocorreu que jamais havia escrito uma carta a qualquer um de seus filhos e que portanto, aquela sensação de ternura e nostalgia morreria com ele.
Beijou a carta como se fosse seu bem mais precioso e começou a lê-la. Era uma carta direcionada a sua avó e que narrava o primeiro passeio a praia que a família havia feito com o carro novo.
Num ponto da leitura ele parou e sorriu. Sua mãe elucidara sua dúvida. Um turbilhão de lembranças passou por sua mente. Lembrou-se então do porquê dos olhos azuis.
Nostálgico e emocionado decidiu por escrever uma carta direcionada a seus filhos. Queria que eles tivessem a mesma sensação que ele ao reler a carta de sua mãe. Ela começava assim:
"Meus filhos. Sei que a ideia de que os anos estão terminando para mim me assombra, porém, nunca fui de lamentar e meu gênio por vezes ruim me impede de dar-me por vencido. Estava lendo uma carta de mamãe e percebi que apesar de ter feito muito por vocês jamais externei em palavras meus sentimentos ou minhas memórias e portanto decidi escrever estas poucas linhas com uma lembrança que tive ontem. Uma lembrança de minha infância. Talvez a primeira de todas. Pode parecer algo singelo, comum talvez, mas algo que sei que vocês não sabem. Algo que por tanto tempo foi somente meu.
Quando criança lia muito e gostava muito das figuras nos livros. Na maioria delas as pessoas tinham olhos azuis e cabelos louros. Nunca achei bonito aqueles cabelos amarelos parecendo palha de milho, mas os olhos azuis, ah os olhos azuis. Talvez tenham sido a primeira coisa na minha vida que achei bonito.
Olhava para meus olhos negros no espelho do banheiro da casa de meus pais e desejava que eles se tornassem azuis. Diante de tal imaginação passei a acreditar que quando crescesse eles mudariam de cor. Devia ter uns cinco ou seis anos. Logo pela manhã, olhava no espelho e corria para peguntar a mamãe se faltava muito para eu crescer. Ela ria me abraçava, beijava e dizia que queria que eu nunca crescesse. Que fosse seu menino para sempre. Eu impaciente me desvencilhava de seus braços contrariado por ela não querer o mesmo que eu. Mal sabia que no futuro sentiria o mesmo por cada um de vocês minhas crianças.
Os anos passaram. Meu desejo, por motivos óbvios não se realizou. Mas o mais importante foi ter acreditado em algo, portanto, deixo um conselho meii piegas a vocês mas muito verdadeiro. Nunca desistam de nada por mais louco e impossível que seja. Olhos azuis existirão para todos...
Que Deus os abençoe. Beijo enorme de seu velho pai."
Colocou a carta sobre o criado mudo tendo a sensação de dever cumprido deitou-se e dormiu feliz como não dormira a muito tempo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mas ainda assim o amor acontece...


Passava das 18 horas quando ela chegou em casa. Cansada. O dia de trabalho havia sido corrido e o motorista do ônibus pouco se importava se ela queria ou não um banho quente. Aliás, o trânsito daquela segunda feira beirava o caos e também pouco se importava com ela.
Aliviada por abrir a porta de seu apartamento lembrou-se que não recordava se havia tirado o ferro de passar roupas da tomada pela manhã.
Como diz o ditado, cansaço pouco é besteira. E lá se foi ela chutando a mesinha da sala num correr desajeitado rumo a mesa de passar roupa. Um respiro aliviado seguiu-se ao pequeno trote. Mil pensamentos na cabeça: - "Pronto, lá ia eu aparecer no noticiário. A mulher do apê queimado". Sorriu com o pensamento maldoso enquanto amarrava seus cabelos num coque com um lápis que encontrou na cozinha.
Curioso saber que nos dias de hoje as pessoas ainda usam lápis para escrever. Parece cafona, da mesma forma que o elefante com as costas virada para a porta de entrada ou o tapetinho escrito "entre sorrindo", mas era inegável o charme que somado a tantos outros objetos cafonas aquele apartamento tinha.
De coque em riste, lá foi ela pôr roupa na máquina de lavar e comida no microondas para esquentar. A novela passava na tv mas pouca atenção ela conseguia dar. Perdera alguns capítulos e não estava mais a par da história. 
Eis que em um destes lapsos de tempo que temos quando paramos para focar em algo ela se depara com a cena do mocinho abraçando com ternura a mocinha. Pensou ela: - "Bem que eu podia ter um namorado pra me abraçar assim". Mas como um mantra que se invoca em momento de profunda desgraça ela balbucia: - "Homem nenhum presta".
O celular vibra fazendo ela despertar do transe de satã em que se encontrava. Era a amiga solteirona como ela. Ansiosa como criança em crise de asma a amiga mal podia se conter de felicidade. Havia descolado um broto. Tipo assim, não era um namorado mas um ficante estável.
Ela houvia a amiga falando toda feliz e pensava: "Esse negócio de namorado esta me perseguindo".
Feliz a amiga desliga e incomodada ela engole a comida. De súbito levanta e resolve dar uma volta. O de sempre, shopping. No caminho, era casal no ônibus, casal no estacionamento, casal na fila de cinema. Sim o universo conspirava contra o bom humor dela.
Sentada, com mais da metade de um milk shake tomado e se sentindo dez quilos mais gorda lembrou-se do Ricardão. Não aquele das histórias mas um ex namorado seu, meio sacana, meio sem vergonha mas que havia apresentado aquele milk shake que a fazia engordar.
Pensou em ligar, mas demoveu-se da idéia. Antes só do que mal acompanhada e o Ricardão já tinha dado o que tinha que dar. Pensou: "Deus, é o fundo do posso ligar para o Ricardão".
Triste, gorda, sozinha, desamparada e sem amor lá se foi ela para casa quando de repente vê um casal brigando na frente do prédio. Maldade se deliciar com a desgraça dos outros mas ela meio que se sentia vingada. Aquela noite, não seria ela a única pessoa a ir dormir infeliz.
Desesperançada do amor ela entra no elevador e eis que seus olhos se cruzaram com os dele. Não era bonito, mas não era feio também. Ambos tinham a mesma altura e ela logo pensou que de salto ficaria mais alta do que aquele tampinha. Não sabia ao certo o que chamara a atenção naquele rapaz mas de fato algo fazia com que seus olhares se cruzassem. 
Havia chegado o andar dele. E ela na frente da porta. Ele pediu licença e de cabeça baixa saiu. Ela o acompanhou com um olhar de curiosidade. Não lembrava de tê-lo visto por ali antes.
Passaram-se os dias e eles se trombaram mais umas vezes até que uma primeira conversa surgiu.
Ele gostava de ler e curtia rock. Não tinha um elefante com as costas viradas para a porta de entrada mais sim uma estátua de um buda gordo e sorridente. Tantos foram os pontos em comum que logo sorrisos e brincadeiras surgiram. Ao voltar para casa, aquela sensação boa e boba de quem se encanta com alguém surgiu.
Mas não, não podia sentir aquilo afinal de contas homem nenhum prestava. 
Mal humorada, levantou-se pela manhã com cara de quem poderia matar um. Não atendeu as ligações dele durante o dia. 
Estaria fazendo o certo em não atender porque homem nenhum presta, mas na última tentativa dele já no finzinho do dia ela resolveu atender e percebeu o quanto aquele papo a fazia bem. Resolveram. Iam se encontrar num barzinho logo ali próximo. Um rock clássico tocava e o chopp estava na temperatura ideal. Entre sorrisos e olhares o primeiro beijo aconteceu. Ela percebeu que daquele momento em diante não poderia mais ficar sem aquele beijo. Feliz, voltaram para o prédio e no andar dele se despediram. No elevador ela se encolheu num sorriso quase pueril, daqueles de menina sapeca. O amor havia acontecido.

domingo, 14 de junho de 2015

Decepção


Talvez a decepção seja o mais triste dos sentimentos.
A dor de amor dói.
A dor da perda dói.
A dor da saudade dói.
A dor da distância dói...
Mas a decepção não. Ela não dói mas ainda assim pulsa.
Ela lateja e inequivocamente te desarma onde se pensava ser mais forte.
Ante tamanho descontentamento, que fazer? O que pensar?
Frustração que macula a alma e faz o mal surgir nos corações.
Ante tamanha imposturia como agir? A quem recorrer?
De todo o melhor que meus defeitos permitiram existir em mim, a confiança sempre se mostrou ser a mais insensata e ainda assim a melhor de todas as minhas qualidades.
Mas sofre-se assim, sofre-se mais uma vez, mas aprende-se e de dor em dor vão se superando os percalços. Ainda não se inventou uma maneira de evitarmos uma mentira, mas com toda a certeza, para toda mentira haverá uma verdade e esta gritará e aparecerá e por fim prevalecerá...

domingo, 31 de maio de 2015

Amor dos meus olhos



Bastaram nossos olhos se cruzarem pela primeira vez para que minha cabeça não quisesse pensar em nada mais além do seu rosto.

Palavras trocadas, gestos medidos e aquela angústia de poder ter feito algo que não agradasse. 
Um momento, uma vez mais silêncio. Eis que então o telefone toca. E por entre aquele emaranhado de fios, aquela voz que parece me eximir de qualquer erro.
Seria essa uma aprovação? Ou uma provocação? Entre dúvidas e aflições vão os pensamentos com profundidade ocupando cada minuto do meu dia.
Viciante como uma droga e certeiro como um tiro são as memórias daquele beijo quente, que por uma ironia do destino causou frio na barriga e tremor nas pernas.
Todos os meus sentidos são seus. Nenhum cheiro consegue ser tão cheiroso quanto o seu. Inebriante, incessante, quente. Como tudo o que se precisa em uma manhã de frio.
Ah as manhãs, que quando ao seu lado, na cama, são pequenos pedaços da eternidade. Eternidade essa onde existe apenas eu e você e todo o resto, mas o resto, de nada vale e pouco tem cor sem que sejam vividos ao seu lado...
Acaricia meu rosto como a mais suave das sedas e derrame sobre meu corpo o peso do seu. Sem pressa, mas sem calma, com todo o rompante da sua paixão e receba em meus braços todo o meu amor...

domingo, 22 de dezembro de 2013

Para sempre serei teu e você minha


Ele olhava para aqueles olhos cinzentos e fundos. Mal podia acreditar que a muito tempo atrás eles foram de um negro profundo como o de uma noite sem luar.
Seus olhos percorriam aquele rosto, outrora jovial e belo. Conseguia encontrar aqui e ali alguns pontos que insistiam em não quererem mudar com a idade. E ela ainda era bela.
A água estava no fogo e ele havia se esquecido. O chá a tarde era quase que um ritual sagrado, mas o olhar contemplativo, quando não se é mais moço pode durar uma eternidade se não mais.
As pressas correu para o fogão, desligou o fogo e com um pano velho pegou a alça da chaleira. Onde estava a camomila? perguntou -se. A memória teimava em pregar-lhe peças como um moleque arteiro colocando tachinhas na cadeira dos outros. 
Ele vira para um lado e para o outro até que seu olhar volta a fitá-la. Lá está ela, deitada, vestida de azul. Sim, o tempo havia passado mas ela ainda era seu anjo. Nunca deixara de vê-la como tal. Ele podia não lembrar onde estava o chá, mas lembrava de suas mão entre aqueles cabelos que já foram negros também. Era seu anjo, tão seu.
Ao virar o rosto para o outro lado, como por milagre ali estava a camomila. Apressou-se, misturou-a a água, e com um coador filtrou-o. Adoçou da maneira que ela gostava e se pôs a beira da cama. Levava a xícara àquela boca que mal se movia. Com pequenos goles ela engolia mas sem expressar sabor ou alegria. Os olhos cinzentos teimavam em olhar para a janela como se esperasse a chegada de alguém.
Triste mas ainda assim relutante em entregar-se a situação, ele teimava em fazer-lhe elogios e em dizer-lhe o quanto ela estava linda naquela tarde.
Terminado o chá e já meio cansado ele deitou-se ao lado dela na cama e abraçou-a com carinho buscando aquele cheirinho bom que apenas ela tinha. Adormeceu.
O sol raiava e mal percebera mas já havia passado uma noite inteira. Apesar do calor que já fazia ela parecia fria, com os olhos fechados continuava parecendo um anjo. Sua boca esboçava um sorriso e ela respirava suavemente. Seu coração acelerado e seu rosto pálido não negavam o susto que tivera. Pensara no pior, mas não era hora ainda.
Levantou-se mais uma vez, beijou-lhe a fronte e foi preparar-lhe café elogiando-a e dizendo que naquela manhã não existia mulher mais linda na face da terra. Ela sorriu e ele percebeu aquele sorriso e seu peito se encheu de alegria e seu dia se encheu de cor.

Moral da história

O amor está nos pequenos gestos. No dia a dia, numa infinidade de rotinas que precisam ser quebradas e ainda assim mantidas. Que nos tornemos velhos, mas ainda assim mantenhamos jovens de coração.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Números



Números... lógicos, certeiros, exatos e frios. É número de identidade, de CPF. Número de celular, número da casa, do CEP, da placa do carro. Existem números para tudo... até para mim e para você...
Apenas mais um número é a que nossa existência se resume nos dias de hoje... lógico, certeiro, exato e frio que por sinal é medido em graus que por sua vez sobe e desce de acordo com os calores, de acordo com os humores... chato... mas ainda assim lógico, certeiro, exato e... triste como um dia frio.
1, 2, 3, 4...... primeiro contamos em anos e depois em décadas. O tempo, carrasco de todos não poderia ser expressado de outra maneira que não em números. É estar em um ciclo que gira 1, 2, 3, n vezes sem sair do lugar. O tempo é a moeda que se paga quando se é apenas mais um número... mas números não fazem a diferença ainda que de fato façam....
3, 2, 1 ........................... fim da linha.................... tão lógico, tão certeiro, tão exato e ainda assim tão frio.......que pena....

sábado, 26 de outubro de 2013

Os erros que cometemos querendo acertar




As vezes cometemos erros tentando acertar. Existem aqueles que se decepcionam com nossas tentativas e desistem de nós, porém, existem outros, que apesar do resultado desconfortável entendem que tentamos dar o nosso melhor e continuam ao nosso lado, nos tornando pessoas mais fortes e melhores.

Mas nem tudo é motivo de tristeza. As pessoas entram e saem de nossas vidas deixando um pouquinho delas em nós. A grande sacada é sabermos separar um pouquinho de bom aqui, um pouquinho de bom ali e quando menos esperarmos seremos sim melhores.
Que Deus abençoe aqueles que continuam conosco nesta caminhada e aqueles que desistiram de nós também. Que todo perdão seja um aprendizado e que toda a magoa se disperse com o tempo.

domingo, 13 de outubro de 2013

Perder para aprender a dar valor



Somos lentos para estes tempos modernos. Tudo é tão rápido, tão dinâmico que mal conseguimos saborear um momento de felicidade. É trabalho, é estudo, é hora de dormir, de acordar, de tomar banho e nisso se vão anos sem que se perceba o que se deixou de viver.
Deixamos escorrer por entre os dedos o que poderia ser nossa felicidade. Deixamos de lado as pessoas que nos amam para que curiosamente possamos dar o melhor para elas. Um presente, uma viagem, um jantar. Queremos dar tudo a elas e acabamos não dando o fundamental: atenção.
Tanto esforço e ainda assim tanta cobrança. É o que pensamos e por isso perdemos. Perdemos tempo, perdemos vida, e perdemos o amor, e é somente na perda que percebemos que lá se foi o melhor de nós.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Aquela velha casa


Ela limpou a casa da melhor maneira que podia. A visita estava por chegar e tudo precisava estar arrumado. A casa não era bonita. Longe disso. As paredes estavam sujas e a muito não via tinta nova, o piso tinha aparência desgastada pelos passos daqueles muitos que por ali passaram mas ainda assim tratava-se de uma casa grande e imponente.
Feliz por ter terminado e ansiosa por matar a saudade, passou na frente daquele espelho colado na porta do guarda- roupas e por um instante fitou o reflexo de seu rosto. Os cabelos brancos, as rugas e alguns cravos denunciavam sua idade. Abaixou a cabeça, olhou para as pequenas mãos calejadas e percebeu que o tempo havia passado rápido, mas logo se recompôs, não havia lugar para este tipo de pensamento, o importante é que a casa estava limpa e ponto final.
O pouco estudo não a impediu tornar-se uma mulher prendada e como boa anfitriã, lembrou-se daquele bolo de milho que sua visita tanto gostava. Comprou os ingredientes e o fez com gosto. Ela sabia que ele iria ficar muito feliz com a surpresa.
Por ultimo, mas não menos importante, preparou a cama. O lençol recém lavado na véspera estava com aquele cheirinho bom de roupa seca ao sol. Ela puxava, esticava e contente com o resultado concluiu que todos os preparativos haviam sido feitos.
O telefone tocou. Seu coração bateu forte. Era a voz de um homem mas ela a ouvia como se fosse a de um menino. Seu sorriso se abriu quando ouviu duas palavrinhas mágicas, "estou chegando". Rapidamente ela olhou para a sala, correu no quarto e confirmou o estado da cama e já na cozinha viu que o bolo ainda fumegava de quente. Seria um dia feliz.
Ele chegou. Estivera longe por muitos e muitos anos. Era alto e bonito. Bem vestido. Ela olhou e meio que ao mesmo tempo abriu os braços e um sorriso. Ele se aproximou, olhou ao redor como que desconfiado e a abraçou também. O sorriso insistia em não sair do rosto dela, mas o rosto dele parecia não apresentar qualquer tipo de reação a não ser aquele educado risinho sínico de canto de boca.
- Por que demorou tanto para vir, perguntou ela sem desmanchar aquele sorriso.
- Estive ocupado demais com o trabalho e minhas coisas, respondeu ele com um tom de voz polido.
- Sente-se aqui, o sofá é novinho.
O homem sentou e tornou a olhar ao redor. Ela sentiu algo estanho nele pela primeira vez: - O que foi? Perguntou ela.
- Não foi nada, respondeu ele mais uma vez com aquele tom polido.
Ela o chamou para a cozinha e enquanto caminhavam até lá por aquele corredor comprido fez uma série de perguntas e todas prontamente respondidas.
Ao chegarem na cozinha ele olhou diretamente para aquela parede em que dois azulejos haviam caído. Ela percebeu e se envergonhou. Havia tido um trabalho danado para limpar todos os azulejos e torcia para que ele não reparasse aqueles dois faltando, mas ele reparou. Para tirar a atenção dele das paredes disse: - Vamos sentando, fiz aquele almoço com tudo o que você gosta e além disso a sobremesa é bolo de milho.
- Obrigado mas já almocei, respondeu ele rapidamente.
- Coma, está tudo fresquinho, acabei de fazer, respondeu ela ainda sorrindo.
- Não vou comer, estou cheio.
- Mas coma só um pouquinho, ao menos o bolo, pediu ela meio que murchando.
Sensibilizado com aqueles olhos pequenos mais ainda assim tão vivos ele pegou um pedaço pequeno daquela forma de bolo enorme e colocou na boca. Antes de pôr o café na xícara, olhou para o fundo dela. Bebeu e ficou calado.
Aquele sorriso no rosto dela havia sumido. Seu semblante ficou triste.
- O que aconteceu? por que você está tão estranho? Por que não comeu nada? Por que fica olhando para cada canto da casa e não olha para mim? Perguntou ela angustiada.
Pressionado, ele explodiu:
- É esta casa mãe! Está feia, caindo aos pedaços. Parece um barraco. Os móveis ainda são aqueles da época da minha infância, tudo está tão sujo, e a senhora? Olhe para a senhora? Está tão mal tratada. Fiquei tanto tempo longe e quando volto tudo parece ter piorado. Eu não dormiria aqui nunca, deve ter rato e barata.
Ela abaixou a cabeça e olhou para um lado. Trouxe as mãos ao rosto e sentiu uma lágrima se formar no canto de um olho. Ela não queria chorar. Aquele deveria ser um momento de alegria e não de vergonha e tristeza. Ela segurou como pôde mas as lágrimas em momentos assim parecem ter mais força do que podemos imaginar. Ela não aguentou tudo aquilo e chorou. Aquela não era mais a sua criança, era apenas um estranho. Bem vestido e com uma voz familiar mas ainda assim um estranho.
Ele, percebendo a barbaridade que acabara de fazer tentou acalmá-la. A abraçou. Pediu-lhe desculpas mas nada continha aqueles soluços. Tanta cultura, tanto estudo parece tê-lo deixado cego e arrogante. Não havia mais o que fazer. A dor havia sido causada.
Ele levantou-se e despediu-se. Ela andou pela casa. A cama estava lá. O lençol ainda esticado com tanto esmero permanecia intocado. Virou-se, fechou aquela velha porta com a pintura descascada e novas lágrimas preencheram-lhe a face. Na cozinha a comida ainda estava morna mas isso não importava mais. Nem mesmo o pequeno arranjo de flores em cima da mesa a consolava. Ela sentou na cadeira mais próxima e chorando adormeceu.

Moral da história

Uma xícara quebrada, ainda que se cole os pedaços, jamais voltará a ser a mesma e assim são as feridas impostas ao coração de uma mãe.