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domingo, 18 de maio de 2025

Um outro 14 de Maio...

Há muito não escrevo aqui. Um pouco de falta de tempo, um pouco de preguiça e um pouco de esquecimento me afastaram de algo que eu sempre gostei de fazer: escrever.

Nunca fui um bom escritor, mas sempre tive e por vezes tenho a facilidade de encontrar as palavras corretas. Seria um dom? Seria sorte? Talvez um pouco dos dois.

Por falar em sorte, e aqui relacionando-a com benção, no último catorze de Maio fiz quarenta e cinco anos. Tenho sorte por estar bem. Relativamente saudável e estável. Sou abençoado por estar vivo, me sentir respeitado e querido por amigos e principalmente ser amado por uma mulher tão excepcional como a Regina.

Sou grato a Deus por tudo que tenho e por tudo que pude fazer em minha vida a despeito de minhas muitas falhas e muitos erros cometidos nesse processo contínuo de amadurecimento.

Mudei bastante ao longo dos anos. Essa mudança se reflete num estado que eu chamo de calma inquietante. Calma porque tenho paz e serenidade para avaliar a vida com um olhar mais contemplativo e inquietante porque me tornei mais incomodado com determinadas coisa ao meu redor. Estranho não? Acho que a soma dos dois seria melhor traduzida como indiferença, mas pode ser também traduzida como conformação por entender que não posso mudar as coisas erradas do mundo. Posso apenas mudar as coisas erradas que existem em mim.

Sei que já fui muito empático, mas empatia demais atraiu aproveitadores. Sei que já fui muito paciente, mas paciência demais atraiu exploradores. Sei que já fui muito amoroso, mas amor demais atraiu paixões avassaladoras, destrutivas e passageiras. Sei também que já fui inocente demais e por isso sofri muito e demorei para entender que a vida é dura e que ela não liga muito para o que sentimos.

Enfim, calejado demais cresci. Evoluí para alguém indiferente, mas ainda assim, e curiosamente, preocupado. Preocupado ainda com o futuro, com sonhos mais concretos e com pequenas realizações. Coisas com o pé no chão.

Quarenta e cinco anos se passaram e me sinto mais forte e mais preparado para a vida do que me sentia aos vinte, época em que tudo parecia tão mais intenso e verdadeiro. 

Saí finalmente do verão e entrei no outono da minha vida, mas não me preocupo. Sempre gostei do frio e das folhas amareladas nas árvores brilhando sob a luz amarela de um sol fraco.

O fato é que em todos os momentos da vida, por mais difíceis que sejam, sempre haverá alguma beleza para ser apreciada, experimentada e vivida. Que venham no mínimo mais quarenta e cinco anos. Não acharia ruim não.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O homem deve ou não pagar a conta?

O mundo é feito de polêmicas. Essa talvez seja uma das grandes verdades da vida. Recentemente li uma reportagem sobre um ator famoso que afirmou sempre dividir a conta com a mulher com quem ele estiver no momento.

Achei curiosa a celeuma que se deu em cima desta declaração. Algumas pessoas defendiam, outras atacavam a opinião deste ator. O fato aqui é que tamanha discussão não levou a lugar algum. As pessoas são livres para pensarem e agirem como bem entenderem, correto?

Bom, a coisa aparentemente não é tão bem correta assim. A forma como nós pensamos é moldada por uma serie de fatores. Todos eles externos e que vão desde a educação que recebemos, bem como todas as interações humanas que tivemos com os outros, passando pelo ambiente e pelo período em que vivemos.

Dito isso, a declaração do ator, na minha opinião, nada mais é do que o retrato dos tempos modernos em que vivemos.

Sobre minha opinião? Digamos que não discordo dele, mas devo admitir que em toda minha vida tomei decisões diametralmente divergentes a dele.

Para instigarmos esta discussão gostaria de começar com uma pergunta bem simples mas que pode vir a ter uma difícil resposta: 

O que é ser homem?

Homem Raiz

O conceito de homem foi estático durante muito tempo, mas atualmente tornou-se flexível, maleável, algo menos, com o perdão do trocadilho, "rígido". Este talvez seja o motivo pelo qual encontramos hoje em dia, garotos de quarenta anos de idade que querem curtir apenas sem se envolverem com nada, com relacionamentos superficiais, ligeiros e sem intensidade. Vendo por esta ótica, de fato não faz sentido pagar a totalidade da conta. Melhor rachar.

Contudo, e voltando a questão do que é ser homem, me parece que a melhor maneira de se responder a esta pergunta não é observarmos o comportamento destes novos - ou as vezes nem tanto - garotos, mas sim o comportamento dos considerados velhos machos e principalmente o que as mulheres em geral esperam de um homem.

Muitos talvez estejam pensando neste momento: "Olha aí mais um homem feministo!". O que posso dizer é que estou longe destes neologismos e radicalismos, contudo, acredito que como seres sociais nos moldamos através de conceitos e relacionamentos.

Entendo que é senso comum que uma mulher queira um homem viril e que a deixe sem fôlego, mas este comportamento ela provavelmente espera dentro de quatro paredes. Fora do quarto ela com toda certeza quer se sentir protegida por este homem. Ela quer sentir que dentre os bilhões de mulheres que existem na face da terra aquele homem escolheu cuidar dela e tão somente dela.

Este desejo feminino sempre foi ao encontro de como a sociedade, de uma forma geral, ditou a maneira como um homem deveria ser. O homem deveria ser o provedor da família. Ele deveria ser o protetor. Aquele que resolve os problemas. É exatamente por isso que a ele era atribuído o título de chefe da família. Os entes sentiam-se seguros em saber que sempre haveria alguém para solucionar o não solucionável.

Eu vim desta velha escola. Apesar de não ser de dar flores, sempre paguei a conta. Era algo que de certa forma trazia para mim uma carga de masculinidade, de proteção, de cuidado, e de educação.

Homem Moderno

Na minha concepção, ser homem é ser cordial, polido e cavalheiro, ainda que o encontro não tenha sido lá essas coisas. Ainda que a mulher não tenha proporcionado momentos sublimes e intensos, ou ainda que a conversa e a companhia daquela mulher não tenha sido simplesmente boa. Ser homem, por todas estas coisas é ser o melhor macho, não apenas no sentido sexual da coisa mas em muitos sentidos diversos.

Atualmente - e aqui percebo que estou ficando velho - ocorre um descolamento entre o sexual e prazeroso e as demais qualidades masculinas. A satisfação momentânea e por diversas e diversas vezes - e se possível com diversas e diversas mulheres - dita o que é ser homem. Neste sentido reafirmo aqui. Melhor dividir a conta mesmo.

A luz no fim do túnel é saber que a vida cursa em ciclos e eque estamos vivendo mais um. Longe das discussões acaloradas tudo vai seguindo. Quem sabe num futuro a briga seja para que a mulher pague toda a conta... Vamos tocando o barco. 


quinta-feira, 14 de maio de 2020

Guava Island




Fazia tempo que não assistia a um filme tendo aquela sensação boa de surpresa. Sem ficar fuçando no celular bem no meio da apresentação.
Guava Island (2019) apresenta a história de amor entre Deni e Kofi numa ilha com um sistema totalitário onde todos trabalham para uma única empresa. Existe uma segunda relação de amor entre Deni, a música e a liberdade representada pela forma despretensiosa e relaxada com a qual o protagonista é apresentado.
Childish Gambino, pseudônimo de Donald Glover se investe de seu personagem em This is America mas de maneira mais natural e com mais tempo de tela nos agracia com suas danças peculiares e com uma afinação musical para cantar que eu desconhecia (não acompanho a carreira do ator como músico).
Quanto a Rihanna, bem, o que dizer de uma mulher que sempre está bela nas fotos mas que aqui estava investida numa mulher comum. Bonita ainda, mas comum. Devo admitir que foi uma das coisas que me chamou a atenção. Suas roupas, cabelo. Até a forma de andar não lembrava em nada aquela mulher poderosa criada pela indústria da mídia.
Me surpreendeu também o fato de a trama se passar em uma fictícia ilha chamada Guava tendo como cenário original a ilha de Cuba. Acho que esta foi a primeira vez que eu vi algo filmado lá. Durante todo o filme fiquei me perguntando que lugar era aquele sem obter resposta. As ruas de terra, casas pobres, igreja humilde e predominância de pessoas negras me fez lembrar de muitos locais pobres no Brasil
O filme em si tenta ser um musical e conta uma história de opressão e sobre a importância de se ter um tempo para a diversão. Literalmente ter uma folga para o trabalho chato e repetitivo. Me fez pensar o quanto por vezes entramos no automático e deixamos que as "prioridades" e obrigações da vida se sobreponham sobre o que de fato nos faz faz bem que é viver a vida com quem amamos e com quem nos faz bem.
Final é meio que previsível mas nem de longe tira a leveza e a despretensão com a qual a história segue. Diversão boa para a quarentena.

Confinado em um 14 de maio



Acordei cedo hoje, não porque quisesse ou porque havia me programado para. Simplesmente despertei.
As luzes apagadas. A cidade ainda dorme, mas cá estou eu desperto ouvindo as poucas gotas de uma chuva que timidamente ensaia cair. A maioria dos quatorze de maio são assim, com chuvosos, contemplativos.
A chuva, tão fluída como o tempo passou. Para mim, por quarenta anos. Reflito sobre o momento em que estou, sobre a saúde que tenho e sobre o tempo que vivo e percebo de fato o quanto é desafiante estar aqui respirando literalmente.
Cheguei a quatro décadas de vida confinado, ameaçado por algo tão pequeno quanto a um vírus. Paro para pensar o quanto evoluímos tecnologicamente nos mais diversos assuntos mas aceitamos e permitimos que uma gripe nos pusesse de joelhos, ou melhor, de quarentena.
É um tempo muito louco para se estar vivo, contudo, sou grato. Grato por tudo o que tenho. Grato por ter um pai que me ama de maneira incondicional e com toda certeza é um homem melhor do que eu. Grato por ter uma mãe alegre e persistente que me ensinou a ter garra mas levar a vida com leveza. Grato pela namorada que tenho por me fazer me sentir amado e importante para alguém. Sou grato pela minha profissão com a qual conquistei tudo que tenho mas acima de tudo com a qual me realizei como pessoa.
O mundo pode estar louco e por vezes pode nos deixar loucos, contudo, em meio a esta loucura vou tocando meu barco de lucidez. Enfrentando o mar feroz e a chuva que ensaia cair. Que venham ao menos mais quarenta anos e que sejam todos de desafios, de superações e de alegrias no final.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mais um 14, mais um maio...


E o mês de maio vai assim passando. Lento, frio e chuvoso. As coisas de maio são assim. Lentas, porém contemplativas. Frias como quem se convida para um carinho quente e chuvosas como aquele período reflexivo necessário a alma.
Para os astrólogos é o mês de touro e de gêmeos. Dizem que touro pertence ao elemento terra. Deve ser verdade. Sempre gostei do cheiro de terra molhada e das coisas belas e cultas, do material e do tangível, da segurança e do conforto, mas quem não gosta de tudo isso não é?
Maio se vai mais uma vez. Para mim pela trigésima nona. Vejo agora um novo ciclo se iniciar lento, frio e chuvoso mas também esperançoso. 
O ano é constituído de um conjunto de doze meses como aprendemos desde de criança, mas maio é aquela parte deste duodécimo que teima em existir e se destacar na diversidade álgida da simplicidade.
E nesta morosidade gélida e pluvial vou seguindo com meu barco.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Já faz um ano

Dia 5 passado fez um ano que escrevi algo por aqui. Um bom tempo eu diria, mas não significa que a vida parou. Talvez seja o caso de falta de inspiração mas com toda a certeza não é o caso de falta de coisas para fazer.
Neste intervalo de um ano muitas mudanças ocorreram. Passei a morar sozinho o que inevitavelmente me levou a ter que cozinhar minha própria comida. Parece cômico e aqueles que me conhecem sabe a negação que eu era na cozinha.
O fato é que após um ano vejo um saldo positivo de mudanças. Protelei demais e hoje tento recuperar o tempo com novas experiências diárias, mas todas enriquecedoras.
Nova vida, novos ares e um melhor ânimo. Tenho me percebido mais solto e comunicativo. Acredito que aqui o pouco mais de idade tenha me permitido olhar as coisas ao meu redor de uma maneira mais suave.
Por fim, continuo acreditando sem ressalvas que mudar ainda é a única certeza imutável e que o novo abre se apresenta em diversas oportunidades. Tudo é uma questão de observar e agarrar aquela que melhor se apresenta.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A folha e a flor




Ao longe a folha de uma árvore via uma roseira. Dentre todas as rosas havia uma que parecia mais vermelha que as demais.
Encantada com tal beleza a folha passava a maior parte do tempo olhando para aquela rosa. Era hipnotizante e ainda assim curiosa. Por mais que se olhasse uma nova beleza parecia surgir.
O vento soprava e com raiva a pequena folha ficava. Como poderia os alísios serem tão ruins assim ao ponto de desviar seu olhar daquela direção.
Passavam dias e a atenção da folha era para uma única coisa. Sua fixação era tão grande que mal reparava nos espinhos que furavam as pessoas que se aproximavam.
Numa bela manhã de um dia frio notou que as pessoas passavam e encaravam a sua árvore e suas irmãs folhinhas. Curiosa, desviou seu olhar para um lado e viu uma de suas irmãs meio amarelada. A do outro lado, avermelhada.
Mais pessoas passavam e olhavam, apontavam e fotografavam. Podia algumas folhas desbotadas serem mais bonitas que uma flor?
Ciente da novidade a pequena folha se encantou. De tanto se achar feia esqueceu-se do que realmente importava. Todos tinham seu lugar ao sol e o dela havia chegado.
A beleza está oculta nas pequenas coisas. Ser folha pode ser uma experiência mais intensa do que ser flor

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Aqueles olhos azuis



Existe beleza na pequenas coisas e mais ainda nas pequenas coisas que passam pela cabeça de uma criança.
Já passava de seus oitenta anos. As dores no corpo e a memória um tanto falha denunciavam a longa jornada que havia trilhado até então.
Com tanto vivido e tão pouco a viver pela frente passara a apegar-se a lembranças de um passado distante e bom. O nascimento do primeiro filho. O dia de seu casamento. A primeira vez que foi a praia. Todas estas foram sensações únicas e ele sabia que muito do que era hoje havia dependido delas, mas algo o incomodava.
Ele meio que queria algo mais antigo. Algo que o remetesse aos tempos em que o tempo não fizia tanta diferença assim. Lembranças da infância com toda a certeza preencheriam essa lacuna, mas qual?
Sim. A idade havia chegado. E ele triste concluía o inevitável. Era um dos últimos de sua geração a estar vivo. Sua amada esposa se fora anos antes. Assim como seus irmãos mais velhos e seus amigos mais próximos. Refletia sozinho sobre a longevidade. A vida era boa, não tinha do que reclamar. Gozava de relativa boa saúde. Teve filhos ótimos e que te deram muito orgulho e netos encantadores. Todas grandes alegrias, mas aqueles que poderiam ajudá-lo a recordar de sua infância não estavam mais ali e isso o incomodava.
Levantou-se da poltrona com um pouco de custo e caminhou até a janela. A tarde estava bela com um sol não muito quente. Ele sentia aquele calor rejuvenescedor em seu rosto e por um instante lembrou-se dos olhos azuis. Mas o que aquilo significara?
Seus olhos eram negros como a noite. Como poderia ter a lembrança de ter tido olhos azuis? Coisa de velho talvez. A cabeça costuma pregar peças num octagenario e estava ali brincando com ele.
Cismado, viu o dia passar e quando a noite chegou, adormeceu.
Dia seguinte acordou cedo. Estava disposto a descobrir o segredo por trás daquele fragmento de memória. Puxou uma caixinha de dentro de uma gaveta. Ali estavam preciosidades. Um pequeno tesouro ao qual jamais abriria mão. Haviam fotos, uma correntinha de São Bento e muitas cartas das quais uma em especial, escrita por sua mãe. Ele parou por algum tempo. Fitava aquela carta com um carinho especial. Estava naquele pedaço de papel a única lembrança palpável de sua mãe. Ele olhava e dizia a si mesmo como ela tinha uma caligrafia bonita. Refletiu sobre aquele pedaço de papel um pouco e em seguida pensou no celular de nova geração que seu filho mais novo lhe deu e com o qual eles trocavam mensagens. Lhe ocorreu que jamais havia escrito uma carta a qualquer um de seus filhos e que portanto, aquela sensação de ternura e nostalgia morreria com ele.
Beijou a carta como se fosse seu bem mais precioso e começou a lê-la. Era uma carta direcionada a sua avó e que narrava o primeiro passeio a praia que a família havia feito com o carro novo.
Num ponto da leitura ele parou e sorriu. Sua mãe elucidara sua dúvida. Um turbilhão de lembranças passou por sua mente. Lembrou-se então do porquê dos olhos azuis.
Nostálgico e emocionado decidiu por escrever uma carta direcionada a seus filhos. Queria que eles tivessem a mesma sensação que ele ao reler a carta de sua mãe. Ela começava assim:
"Meus filhos. Sei que a ideia de que os anos estão terminando para mim me assombra, porém, nunca fui de lamentar e meu gênio por vezes ruim me impede de dar-me por vencido. Estava lendo uma carta de mamãe e percebi que apesar de ter feito muito por vocês jamais externei em palavras meus sentimentos ou minhas memórias e portanto decidi escrever estas poucas linhas com uma lembrança que tive ontem. Uma lembrança de minha infância. Talvez a primeira de todas. Pode parecer algo singelo, comum talvez, mas algo que sei que vocês não sabem. Algo que por tanto tempo foi somente meu.
Quando criança lia muito e gostava muito das figuras nos livros. Na maioria delas as pessoas tinham olhos azuis e cabelos louros. Nunca achei bonito aqueles cabelos amarelos parecendo palha de milho, mas os olhos azuis, ah os olhos azuis. Talvez tenham sido a primeira coisa na minha vida que achei bonito.
Olhava para meus olhos negros no espelho do banheiro da casa de meus pais e desejava que eles se tornassem azuis. Diante de tal imaginação passei a acreditar que quando crescesse eles mudariam de cor. Devia ter uns cinco ou seis anos. Logo pela manhã, olhava no espelho e corria para peguntar a mamãe se faltava muito para eu crescer. Ela ria me abraçava, beijava e dizia que queria que eu nunca crescesse. Que fosse seu menino para sempre. Eu impaciente me desvencilhava de seus braços contrariado por ela não querer o mesmo que eu. Mal sabia que no futuro sentiria o mesmo por cada um de vocês minhas crianças.
Os anos passaram. Meu desejo, por motivos óbvios não se realizou. Mas o mais importante foi ter acreditado em algo, portanto, deixo um conselho meii piegas a vocês mas muito verdadeiro. Nunca desistam de nada por mais louco e impossível que seja. Olhos azuis existirão para todos...
Que Deus os abençoe. Beijo enorme de seu velho pai."
Colocou a carta sobre o criado mudo tendo a sensação de dever cumprido deitou-se e dormiu feliz como não dormira a muito tempo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mas ainda assim o amor acontece...


Passava das 18 horas quando ela chegou em casa. Cansada. O dia de trabalho havia sido corrido e o motorista do ônibus pouco se importava se ela queria ou não um banho quente. Aliás, o trânsito daquela segunda feira beirava o caos e também pouco se importava com ela.
Aliviada por abrir a porta de seu apartamento lembrou-se que não recordava se havia tirado o ferro de passar roupas da tomada pela manhã.
Como diz o ditado, cansaço pouco é besteira. E lá se foi ela chutando a mesinha da sala num correr desajeitado rumo a mesa de passar roupa. Um respiro aliviado seguiu-se ao pequeno trote. Mil pensamentos na cabeça: - "Pronto, lá ia eu aparecer no noticiário. A mulher do apê queimado". Sorriu com o pensamento maldoso enquanto amarrava seus cabelos num coque com um lápis que encontrou na cozinha.
Curioso saber que nos dias de hoje as pessoas ainda usam lápis para escrever. Parece cafona, da mesma forma que o elefante com as costas virada para a porta de entrada ou o tapetinho escrito "entre sorrindo", mas era inegável o charme que somado a tantos outros objetos cafonas aquele apartamento tinha.
De coque em riste, lá foi ela pôr roupa na máquina de lavar e comida no microondas para esquentar. A novela passava na tv mas pouca atenção ela conseguia dar. Perdera alguns capítulos e não estava mais a par da história. 
Eis que em um destes lapsos de tempo que temos quando paramos para focar em algo ela se depara com a cena do mocinho abraçando com ternura a mocinha. Pensou ela: - "Bem que eu podia ter um namorado pra me abraçar assim". Mas como um mantra que se invoca em momento de profunda desgraça ela balbucia: - "Homem nenhum presta".
O celular vibra fazendo ela despertar do transe de satã em que se encontrava. Era a amiga solteirona como ela. Ansiosa como criança em crise de asma a amiga mal podia se conter de felicidade. Havia descolado um broto. Tipo assim, não era um namorado mas um ficante estável.
Ela houvia a amiga falando toda feliz e pensava: "Esse negócio de namorado esta me perseguindo".
Feliz a amiga desliga e incomodada ela engole a comida. De súbito levanta e resolve dar uma volta. O de sempre, shopping. No caminho, era casal no ônibus, casal no estacionamento, casal na fila de cinema. Sim o universo conspirava contra o bom humor dela.
Sentada, com mais da metade de um milk shake tomado e se sentindo dez quilos mais gorda lembrou-se do Ricardão. Não aquele das histórias mas um ex namorado seu, meio sacana, meio sem vergonha mas que havia apresentado aquele milk shake que a fazia engordar.
Pensou em ligar, mas demoveu-se da idéia. Antes só do que mal acompanhada e o Ricardão já tinha dado o que tinha que dar. Pensou: "Deus, é o fundo do posso ligar para o Ricardão".
Triste, gorda, sozinha, desamparada e sem amor lá se foi ela para casa quando de repente vê um casal brigando na frente do prédio. Maldade se deliciar com a desgraça dos outros mas ela meio que se sentia vingada. Aquela noite, não seria ela a única pessoa a ir dormir infeliz.
Desesperançada do amor ela entra no elevador e eis que seus olhos se cruzaram com os dele. Não era bonito, mas não era feio também. Ambos tinham a mesma altura e ela logo pensou que de salto ficaria mais alta do que aquele tampinha. Não sabia ao certo o que chamara a atenção naquele rapaz mas de fato algo fazia com que seus olhares se cruzassem. 
Havia chegado o andar dele. E ela na frente da porta. Ele pediu licença e de cabeça baixa saiu. Ela o acompanhou com um olhar de curiosidade. Não lembrava de tê-lo visto por ali antes.
Passaram-se os dias e eles se trombaram mais umas vezes até que uma primeira conversa surgiu.
Ele gostava de ler e curtia rock. Não tinha um elefante com as costas viradas para a porta de entrada mais sim uma estátua de um buda gordo e sorridente. Tantos foram os pontos em comum que logo sorrisos e brincadeiras surgiram. Ao voltar para casa, aquela sensação boa e boba de quem se encanta com alguém surgiu.
Mas não, não podia sentir aquilo afinal de contas homem nenhum prestava. 
Mal humorada, levantou-se pela manhã com cara de quem poderia matar um. Não atendeu as ligações dele durante o dia. 
Estaria fazendo o certo em não atender porque homem nenhum presta, mas na última tentativa dele já no finzinho do dia ela resolveu atender e percebeu o quanto aquele papo a fazia bem. Resolveram. Iam se encontrar num barzinho logo ali próximo. Um rock clássico tocava e o chopp estava na temperatura ideal. Entre sorrisos e olhares o primeiro beijo aconteceu. Ela percebeu que daquele momento em diante não poderia mais ficar sem aquele beijo. Feliz, voltaram para o prédio e no andar dele se despediram. No elevador ela se encolheu num sorriso quase pueril, daqueles de menina sapeca. O amor havia acontecido.

domingo, 31 de maio de 2015

Amor dos meus olhos



Bastaram nossos olhos se cruzarem pela primeira vez para que minha cabeça não quisesse pensar em nada mais além do seu rosto.

Palavras trocadas, gestos medidos e aquela angústia de poder ter feito algo que não agradasse. 
Um momento, uma vez mais silêncio. Eis que então o telefone toca. E por entre aquele emaranhado de fios, aquela voz que parece me eximir de qualquer erro.
Seria essa uma aprovação? Ou uma provocação? Entre dúvidas e aflições vão os pensamentos com profundidade ocupando cada minuto do meu dia.
Viciante como uma droga e certeiro como um tiro são as memórias daquele beijo quente, que por uma ironia do destino causou frio na barriga e tremor nas pernas.
Todos os meus sentidos são seus. Nenhum cheiro consegue ser tão cheiroso quanto o seu. Inebriante, incessante, quente. Como tudo o que se precisa em uma manhã de frio.
Ah as manhãs, que quando ao seu lado, na cama, são pequenos pedaços da eternidade. Eternidade essa onde existe apenas eu e você e todo o resto, mas o resto, de nada vale e pouco tem cor sem que sejam vividos ao seu lado...
Acaricia meu rosto como a mais suave das sedas e derrame sobre meu corpo o peso do seu. Sem pressa, mas sem calma, com todo o rompante da sua paixão e receba em meus braços todo o meu amor...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Como cão e gato...

Brigue comigo. Me irrite mas não se esqueça de calar-me com teus beijos.
Faça-me, desfaça-me e refaça-me com este teu olhar felino, quase obsceno.
Envolva-me em tuas brincadeiras e me faça menino uma vez mais.
Mas nunca me prive de ter tua intensidade e insanidade. São nelas que te conheço e são nelas que me encontro.


sábado, 26 de outubro de 2013

Os erros que cometemos querendo acertar




As vezes cometemos erros tentando acertar. Existem aqueles que se decepcionam com nossas tentativas e desistem de nós, porém, existem outros, que apesar do resultado desconfortável entendem que tentamos dar o nosso melhor e continuam ao nosso lado, nos tornando pessoas mais fortes e melhores.

Mas nem tudo é motivo de tristeza. As pessoas entram e saem de nossas vidas deixando um pouquinho delas em nós. A grande sacada é sabermos separar um pouquinho de bom aqui, um pouquinho de bom ali e quando menos esperarmos seremos sim melhores.
Que Deus abençoe aqueles que continuam conosco nesta caminhada e aqueles que desistiram de nós também. Que todo perdão seja um aprendizado e que toda a magoa se disperse com o tempo.

sábado, 7 de setembro de 2013

Prenúncio de novos tempos


E o novo bate a nossa porta todos os dias. Vejo lutas com causas dignas e sem motivações algumas. Tempos atribulados de lágrimas e dúvidas, mas de esperança e confiança.
Olhares para o horizonte a tentar vislumbrar o melhor. O questionamento sobre o por quê de tudo isso corrobora a ideia de existência que por si só nada mais é que a pura e simples essência da filosofia.
Enxergo mudanças. Se boas ou ruins apenas os resultados dirão em um breve futuro, mas vejo o homem comum questionando este estado de letargia ruminante a que foi subjugado e aí sim vejo esperanças se renovarem e surgirem do caos.
A ordem natural das coisas sempre foi morrer para dar lugar ao novo. Novos tempos clamam por aparecer a luz da história e a presença de olhares espantados e ávidos pelo desconhecido. Que venham e que se provem válidos.

sábado, 18 de maio de 2013

Mais um 14 de maio




Envelhecer tem seu lado bom. Desperta em nós um olhar mais analítico, questionador e ainda assim contemplativo.
Olho para trás e vejo de maneira serena uma vida cheia de mudanças, de altos e baixos e de momentos que jamais quereria que fossem diferentes do que foram.
De fato a idade trás consigo a maturidade para podermos olhar o futuro e simplesmente dizermos que venha, que simplesmente aconteça.
Ainda me pego lembrando de minha infância e dos planos mirabolantes que tinha para o futuro. Vejo que muitos não realizei, não por falta de oportunidade, mas por ter percebido que novos horizontes me foram apresentados e para minha felicidade ainda me são.
Sim, envelheci mais um pouco, mas este pouco não me impediu de sonhar como uma criança, ansiosa, inquieta, desejosa de mais e mais vida.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Um sonho a mais




Um sonho, apenas um sonho...obstinado e relutante, ainda assim um suspiro, um momento singelo.
Entre devaneios e delírios de realidade caminhamos, com os pés nus. Rachados e doloridos, mas ainda assim livres para irem onde quiser, onde a cabeça mandar...
Sonhos que vão, sonhos que vem e nessas idas e vindas vamos nos moldando. Uns mais fortes, outros mais calejados e alguns mais loucos mas nunca estanques, nunca parados, porque parar é o mesmo que deixar de existir e falta de existência é morte... ainda que se respire.
Sonhe mais, sonhe alto, deseje. Queira estar no olimpus, queira estar feliz. Deseje um sopro de inspiração.
São os tais ventos da mudança que criam a coragem necessária para nos movimentarmos, para irmos além, ainda que não saiamos do lugar.

Sonhe, sonhe de novo e sonhe mais uma vez...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Aos meus amigos, perdas construtivas


É realmente uma pena não estarmos imunes as mudanças que a vida nos apresenta. Isso inclui perdermos o que nos é precioso. Contudo, há uma lição muito grande a se tirar desta experiência. Deus em sua sabedoria sem fim nunca nos retira algo ou alguém para nos deixar tristes e infelizes, mas sim para nos mostrar onde estávamos cometendo erros, para mostrar-nos onde podemos e devemos melhorar como seres humanos. A cada dor sentida uma nova esperança haverá de surgir, a cada lágrima derramada um novo sorriso haverá de inundar o nosso rosto e para cada porta fechada uma nova haverá de se abrir, pois a vida é isso, um conjunto de ciclos que vão e vem, que nos derruba e nos levanta, que aflora nossos medos e angustias para em seguida nos ver reerguer mais fortes e melhores. Mais humanos. Desejo a todos meus amigos que Deus opere milagres em nossas vidas e que ele provenha o consolo e a vitória a todos que o buscam. Sejam todos sempre felizes.